Sexta-feira, Outubro 09, 2009

PRENDA DOS PORTOS (cel bentin)

Desde que batizou o bar, ela vive a exibir contornos de companhia na arte do próprio leito, o das águas e taças, ardentes.

Da parede, as mãos de sua gravura úmida provocam um feitiço azul. Um céu manuscrito a desapertar sonhos à revelia do dia, um anseio com força de mar a escorrer num gume destemperado, calado, e doce; silêncio que transcreve sem pedir cor ou perder volume - transparece sem calar mistério, exprime corte sem arriscar o burburinho da voz.

Mais a memória - do meu desejo e da maré bêbada dos tempos - não permite lhes dar. Mas foi assim, ao lado dela, que minha alvorada dançou: feito pedra de gás em um ilusório malabares de lendas; noite-corrente entre o dorso das mãos de Iemanjá e o canto no verso dos olhos, duma sereia.

Sábado, Outubro 03, 2009

MEMORIAL NA VELA (cel bentin)

Viu o desenho azul de uma saia:
dançava as vistas além da noite.
Um pavio de tempos sem logos.
Fio dourado chamado. De mim.


Quinta-feira, Outubro 01, 2009

FORNO DOCE (cel bentin)

Sua argila dançava, mergulhada que era e estava,
sentindo bater cordial a alfaia ritmada dos passos:
a artesã da fornada lhe fazia crescer de instantes.

Ouvia sempre um tamborete que não enxergava,
o imaginava na cadência de seus olhos velados
bem além da barriga e da cabeça pequeninas
de curiosidade avulsa e querências gigantes:

"A casa-grande pensa que sou é dela,
mas pensa que é toda feita para mim;
ah! vou te fazer é surpresa e tempero...

Repara você que me ouve a voz
(que ainda não falo nem tenho):
a doçura revelada vem antes do olhar,
antecede mesmo o desejo de paladar.

O plantio da doçura é de favo concebido,
cultivado e apreendido em gesto e leito
inédito do mistério paciente dos vinhos.

E é assim que saliva toda beleza!"

- É então que o pequeno pontarrocamboleia o umbigo,
acenando ato de milagre miúdo longe de ser mirrado. -

Ouve-se um sorriso declarando da cozinha
notícia de um puxa-puxa acalorado no dente:

"Querido! Nosso brigadeirozin mexeu!"


NELA (cel bentin)



Vou transcrever como minha boca aperta quando penso.

Quinta-feira, Setembro 24, 2009

REPARO HORIZONTAL (cel bentin)



Dom real de horizonte há mesmo
num arco ancestral de armadilha:
a da primária ossatura feminina.

Pode reparar, homem de pouca fé:

Sempre que se funde ou descobre
o ato de se alcançar o firmamento,
há um esforço uno e contundente
num conluio delicioso das costelas.

(Pois muito melhor o dirigem,
bem mais além do apocalipse,
as maçãs da costela de adão.)

ARRIMO (cel bentin)



Ao despertar, a carência em si nua:
minha pele persegue tuas encostas;
arrimo de sonho em noite embalada.



foto vinda do site ricardo.senna.blog.uol.com.br/poemas/

Domingo, Setembro 20, 2009

PELE DE CORDEIRO (cel bentin)


Irreconhecível ovelha negra. Agora vivia a descer ao inferno das lãs para arriscar espiação de tempos em tempos, sempre louco para encontrar (a malharia crua).
Jurava: embolaria todo de graça nela.

CHEIA DA CACIMBA ABERTA (cel bentin)


O mundo das águas nos olhos: olhar de leitor, feito a palma da mão sobre a pele de barro: gosto se lançando apetite, sede e cheia na experiência de quem, só, ressoa.

foto (Museu da Língua Portuguesa): : www.adriana.fot.br

Sexta-feira, Setembro 18, 2009

ALÉM DO SORRISO (cel bentin)



Fim de tarde. Criança em instantes de lição de casa. Mesmo sentindo um gostinho estranho, ela sorria e criava carinho com as palavras enquanto escrevia. Era brinquedo novo nas mãos: conduzia as palavras com o mesmo zelo-brinquedo com que passeava suas bonecas na prainha.

Era hora inédita, divertida, momento em que a doçura da boca descobertava de um modo diferente, desprendia-se em uma única ponta. Depois de um curto intervalo, terminara a redação fazendo piada a partir do consolo do irmão mais velho:

"Relaxa, maninha! Há mais do que as casinhas de dentes no sorriso: não esquece do bafinho e dessa saliva que sempre te lava a voz: são tudo um caderno de caligrafia solta: juntos vão desenhando a bênção da tua assinatura, na língua."

Ainda sentindo um arfar de ar correr da janela miúda, o feitiço seguia todo nas mãos meninas. Dizia ela, refeita do susto da escrita, batendo o pé toda orgulhosa do que em si descobrira.
"Não teve varinha nem 'salinha' de fada nenhuma. Fui eu..."

(Voara, além do sorriso e da palavra da boca da pequenina, o estalo de um dente de leite, que tombava na escrivaninha.)

Segunda-feira, Setembro 14, 2009

REVOLUÇÃO CULTURAL (cel bentin)



A memória, estocada mandarim, é vermelha.
Mas caracter que não circula mal sangra:
escurece noutra corrente; gangrena.


a Xinran Xue

http://portalivros.wordpress.com/2009/09/03/bertrand-lanca-testemunhos-da-china/

Quarta-feira, Setembro 09, 2009

GUERRA SECUNDÁRIA (cel bentin)



o hoje
saliva a mesma fome
azul na veia do olho vermelho.


luto de poesia branco,
posto que ela ainda é luz
e arma dura de sombras além,
das pálpebras ao pó.


(bem antes do dia d sair,
a cor do homem partiu.
à francesa.)



imagem: o luto da poesia é branco (iriene borges)

http://poeteias.blogspot.com/2009/08/o-luto-da-poesia-e-branco.html

Segunda-feira, Agosto 10, 2009

LONGE (cel bentin)


longo o gesto de apanhá-lo no vento
eucanaã ferraz

a brisa do sábado ri pés perdidos
entre as folhas do fim-de-semana

caligrafia de ouvido teu nome

Quinta-feira, Julho 30, 2009

MALAZARTE, O JUIZ E O PECADO CAPTAR (cel bentin)

Diante do tribunal, quando inquirido se não era ele o único funcionário capaz de intermediar possíveis desvios de recursos da prefeitura, Pedro encarna a ironia do juiz e revela:

- Só nos farta o borso cheio, meretríssimo!

Quinta-feira, Julho 02, 2009

BILHETE (cel bentin)


coração viciado
no jogo é assim:
não bate, palpita;

e sempre escreve
entre olhos roxos

"vivo sempre
é acertando.

na quina."

Domingo, Junho 28, 2009

COPO DE LEITE (cel bentin)


Da prateleira, ela me ri toda solene
enchendo salas abusadas de ironia
no pé com pé que já faz uma outra flor
a recolher o doce leite da tardinha.

A flor ri que zomba dessa minha condição
de mal saber sossegar o dom da espera
enquanto a outra carrega o leite à mão
sem saber que rebenta cheia e coração
na caneca que bem derrama, da janela.

(Hoje um leito em conjugação de copos
guardará de leite o céu dessa noite.)